quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A Vera

A Vera conta muitas coisas.

- Meu pai. Você tinha que ver meu pai. Cara de mafioso, sabe? Só vestia terno de bom corte, chapéu caro. Levava minha mãe pra passear todas as noites, era apaixonado por ela. Aliás, quando ela morreu, ele não aguentou e morreu também logo depois. Ficou triste, tristérrimo, arrasado, o coitadinho. Ah, eu era louca pelo meu pai. A gente tinha um dengo, uma cumplicidade, morro de saudade. Nos meus tempos de moça eu marcava encontro com três, quatro pretendentes, e saía com quem ia me buscar primeiro. Meu pai que tratava de dispensar os outros, inventava qualquer coisa. Depois eu chegava em casa e a gente ria, ria. Ele dizia 'filhinha, isso mesmo, aproveite a vida enquanto você é jovem'. Ah, como eu adorei minha juventude. Muitos namorados, muitas viagens, sempre aprontei muito. Ia pra cima e pra baixo com o meu pai, que era músico e tinha amizade com muitos artistas. Ele tocava violão pra um monte de gente que fez sucesso na época, inclusive a Maysa. Conhece a Maysa? Então, ela ia sempre lá em casa. E eu cuidei do meu pai até ele morrer. Passei o mês inteiro de guarda no leito de morte dele, fiquei tão triste quando ele foi. Mas só tenho lembrança boa, viu? Que marido meu pai era! Se apaixonou à primeira vista pela minha mãe, pediu ela em casamento no dia seguinte e ficou com ela por mais de cinquenta anos. Ah, o meu pai.

A Vera conta muitas coisas sobre os outros.

- É que você é nova no cartório, mas já passou tanta gente estranha por aqui. Você não acredita. Tinha o Kaká, que era chatíssimo, ninguém suportava. Tanto que um dia a Rosa bateu nele com um processo. Um volume grande, pá, deu-lhe na cabeça. O Kaká foi reclamar com o juiz, mas todo mundo achou engraçado ele ir reclamar com o juiz de ter levado um processo na cabeça. Ele não aguentou, pouco tempo depois pediu transferência e foi pra décima primeira. Aqui na sétima só fica quem aguenta. Só mesmo. Pra você ver, um dia chegou um estagiário novo aqui, fez um pouco de balcão, meia horinha, falou que ia ao banheiro e não voltou mais. Deve estar até hoje lá no banheiro, o cagão. Bundão. Não aguentou nem um dia! Tem que ter os nervos no lugar. Ou então ser pirado de vez. Que nem a dona Nair, que ficou trinta anos aqui. Te contei da dona Nair? Engraçada, ela. Trazia muamba do Paraguai todo mês e vendia pros escreventes do fórum inteiro, cobrava todo mundo duas vezes. Pilantra. Mas eu sou precavida, tinha um caderninho pra anotar minhas comprinhas. Quando a dona Nair vinha me cobrar em dobro eu mostrava pra ela 'tó olha aqui a senhora já assinou dona Nair isso tá pago'. Sem nhó nhó nhó, que eu não durmo na sombra do boi. Um dia a dona Nair não voltou do almoço porque foi presa jogando no bicho. Haha. Já pensou? Uma velhinha daquelas, os policiais só podem mesmo ter feito de sacanagem. A sorte da dona Nair era que o juiz da vara era amigo do delegado, e soltaram a dona Nair no mesmo dia. Mas nem depois desse susto ela parou de jogar no bicho e de trazer muamba.

A Vera conta um monte, um monte de coisas.

- Um restaurantezinho ali na Aclimação mesmo, tem que ver que ajeitadinho. Todo decoradinho, boa comida, variedade imensa de bebidas. Um dia eu levo vocês, eu prometo. Fui esses dias com a Lúcia e a Bete, minhas amigas, porque a Bete está com muitos problemas e precisava dar uma espairecida. Separou do marido e perdeu a guarda das crianças, está piradinha, bebendo aos montes. Chegamos lá, pedi um chopinho, estava experimentando as massas, e a Bete se jogando na tequila. Depois começou a tomar chopp, eu comentei com a Lúcia que aquilo não ia prestar, mas a gente não tinha muito o que fazer. A Bete começou a ficar alterada, falando alto. Quando o garçom veio trazer mais pãozinho de alho na mesa, a Bete levantou e lascou um beijo na boca dele. De língua. O restaurante inteiro parou pra olhar, foi um vexame. O garçom ficou sem graça, a gente começou a querer ir embora, mas a Bete não queria. 'Vamos embora, Bete', mas a Bete não queria, não queria. 'Não vou, não. Estou adorando este restaurante. A comida é gostosa, o garçom é lindo e eu estou me divertindo horrores. Eu vou ficar, tá entendendo?'. Tivemos que ligar pro Pedro ir buscar a Bete. O Pedro é primo dela, um homão de quase dois metros. Tirou ela do restaurante à força. Ah, eu nunca mais vou tomar chopp com a Bete. Até porque eu prefiro um vinho. Tinto, que nem o meu pai gostava. Já te contei do meu pai?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Uma nota sobre o comportamento do Treco

O Treco mija pela casa, daí apanha, daí esquece e mija pela casa, daí apanha, daí esquece e mija pela casa, daí apanha, daí esquece e mija pela casa, daí apanha, daí esquece e mija pela casa, daí apanha, daí esquece e mija pela casa, daí apanha. Daí mija pela casa de novo & etc.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Drão



Morre, nasce trigo
Vive, morre pão

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Saudosas notas

I.

Feliz Natal e etc!


II.

Coincidências estranhas acontecem na minha vida o tempo todo. Mesmo. Comprei esses dias Um bonde chamado Desejo, do Tenessee Williams, e Sem plumas, do Woody Allen. Achei em prateleiras separadas e tudo, não tinha pensado em ligação nenhuma e tal, mas daí ontem terminei de ler os dois, Um bonde primeiro e Sem plumas depois, e a Blanche DuBois aparece numa peça do livro do Allen. Pois é. Eu nunca tinha lido nenhum dos dois na minha vida, mas fui ler justo no mesmíssimo dia. Coincidência.


III.

Fiz a festa nas Americanas. Comprei o Batman begins e o Cavaleiro das trevas, Blade runner, Bonequinha de luxo, O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford e mais cinco filmes da Disney. Inclusive Bernardo e Bianca que, ai, me machuca o coraçãozinho. Eu resgatei o ódio que eu sentia pela Madame Medusa, e ele veio mais forte do que nunca.


IV.

Falando nisso, preciso fazer a minha lista de final de ano. Mas ainda tem mais final de ano pela frente e se o final do ano acabar antes de eu ter tempo de acabar a minha lista, vamos ter bastante começo de ano no ano que vem pra eu começar. E tal.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

vai conhecê-la, se ela for sua. vai saber de tudo porque saberá como um instinto, e mais ainda: saberá por pensar demais. por aprender demais até quase afobadamente. por observar em gestos pequenos os sins e os nãos. e vai entender, também. os desgostos, frescuras beirando repugnanciazinhas. vai saber que ela não bebe guaraná, que ela não vê tevê, que ela nunca teve uma cárie, que até o quarto andar ela só vai de escada, que ela beija a sua nuca de olho aberto, que ela não suporta crase mal posta e que o cabelo dela cresce devagar. vai conhecê-la, se ela for sua, e vai amá-la até com raiva. e até a raiva dela. e até a sua raiva da raiva dela. e vai, mais que amá-la, gostar dela. e gostar que ela goste do amor. e vai saber que ela teve dois ou três amores de inteira implosão, mas que ela contava com isso. e que ela teve duas ou três camas sem amor, e que depois ela teve muito nojo à beira do choro. e que ela tem realmente muito nojo do sexo dos outros. e que ela esteve a vida inteira sem entender como as pessoas se dão tão facilmente por nada. como fazem sexo pau-buraco e só, feito velhos comendo putas. ou meninos comendo meninas porque o momento queria. ah, como as pessoas se esvaziam do pouco que é verdadeiro e se desperdiçam. chafurdam animais numa lama rala de bagunça e tédio. você vai conhecer esse horror dela. vai conhecê-la, se ela for sua. e vai se arrepender de todo o antes até o nojo também. e vai ser só dela, porque o egoísmo dela dá pra dois. se ela for sua, não haverá renúncia grande demais e você vai saber disso. e vai saber disso de novo e de tudo isso o dia inteiro. mas, se ela não for sua, você não vai saber de nada mesmo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Odeio quem escreve SIMPLISMENTE. Odeio musiquinha com vocalização uh-uhhh sha-lala iê-ee uou-ou. Odeio pernilongo e qualquer coisa que tenha essa mania feia de entrar na pele dos outros. Odeio gente que não saca as coisas, que não percebe nada por nada, ainda mais eu sendo tipo excessivamente expressiva e quase sempre infantilmente transparente a qualquer olho minimamente atento. Odeio aula. Professor hablando hablando hablando algo que eu leria em casa em meia hora e pá. Odeio a ordem natural das coisas, porque na ordem natural das coisas as coisas sempre estragam no final. Odeio o fato de a minha alma ser dividida em oito compartimentos completamente diferentes e o fato de eu nunca saber qual o compartimento que vai acordar comigo amanhã de manhã. Odeio refrigerante de guaraná e acho que refrigerante de guaraná sem gás e sem gelo é pior que Auschwitz. Odeio o trânsito de São Paulo. Odeio chuva em São Paulo. Odeio odiar tanto São Paulo, às vezes. Mas também odeio odiar Campinas, quando odeio Campinas. Odeio fila de banco. Odeio fila de qualquer coisa, pra falar a verdade. Odeio gente que fala muito, odeio gente que fala pouco, odeio frio, odeio calor, odeio meu cabelo, odeio o Calypso, odeio festa cheia de roqueirinhos, odeio festa cheia de boyzinhos, odeio festa cheia de gente alternativinha. Odeio gente alternativinha que usa o paletó do terno por cima da camiseta e calça listradinha com All Star, porque hoje em dia não tem nada menos alternativinho que isso e além de tudo fica feio. Odeio coisa feia. Odeio o Corinthians, o São Paulo, o Flamengo, o Botafogo, o Grêmio, o Inter, a seleção argentina e, principalmente, o Guarani e a Ponte Preta em dia de derby. Odeio celular pré-pago. Odeio nego de Voyage 86 que quer ser O Veloz e mandar brasa 90km/h na via em que é 40 o limite. Odeio o Kassab e toda a câmara paulistana, mas, pra ser justa, também odeio o executivo e o legislativo de todas as cidades, de todos os estados e, claro, o federal, especialmente. Do judiciário eu não vou nem falar. Odeio blá.

sábado, 28 de novembro de 2009

Se você soubesse, se você só soubesse o quanto eu preciso e não digo. Preciso de tudo e não digo. É bem a minha cara, e eu sei disso porque tenho me analisado já há vinte anos, com a exclusividade da visão de dentro. Tenho alguma coisa na garganta. Tenho medo que a precisão aumente se eu disser sobre ela e também tenho perdido as palavras. Às vezes eu penso que sei menos palavras a cada dia. Ou que elas me grudaram no topo do cérebro e agora eu não consigo descolá-las pra usar quando eu preciso. E eu preciso, estou dizendo agora - sem que contudo você saiba o quanto. Porque as palavras, você sabe, são tudo o que existe, mas são só palavras. Tudo o que existe é só tudo o que existe, no final das contas, angústia ou alegria. Mas se você soubesse, se você só soubesse o quanto eu vinha torcendo sem palavras pra que você existisse. E eu vinha esperando sem que eu soubesse, ou quase. E eu vinha pensando nos seus olhos sem pensá-los realmente, porque não os conhecia, e vinha já morta de ciúme deles, porque eles olhavam olhavam olhavam como agora olham e eu vejo. E eu vinha sentindo qualquer coisa sem direção, e eu andava por todos os lugares onde eu não deveria estar com todas as pessoas e coisas que me faziam rir de distração enquanto eu esperava. E se você soubesse, só soubesse o quanto eu te esperei. E se soubesse o quanto eu preciso que você tenha me esperado também. E se soubesse de tudo o que eu preciso sem dizer, e se soubesse de mim a metade, e se tolerasse de mim o insuportável, e se me amasse com a tontura da espera, e se precisasse tanto também, e se etc.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Bastardos inglórios (Quentin Tarantino, 2009) - Legal pra caramba, mas meio comprido demais. Só o Tarantino sabe colocar miolos à mostra com tanta falta de classe ainda assim deixando tudo muito legal, e só ele sabe como enrolar em sequências imensas irrelevantíssimas só pelo prazer do cinema e coisa e tal.

Coco antes de Chanel (Anne Fontaine, 2009) - Se a Coco Chanel fosse inglesa, seria a Keira Knightley quem teria atuado no lugar da Audrey Tautou. Não que eu goste das duas igualmente, a Audrey dá um pau na Keira em todos os quesitos por mim verificáveis, mas é que o filme tem cara de épico de mulherzinha, sabe? É legal e tudo, mas bem Keira Knightley, e você deve entender o que eu estou querendo dizer.

2012 (Roland Emmerich, 2009) - Legal pelos efeitos, que permitem que a gente veja o planeta convulsionando & explodindo em fogo & tsunamis enquanto os mocinhos fogem num avião cujo piloto amador foi escolhido às pressas e tudo aquilo. O mundo acaba, mas tem final feliz, e isso é muito legal.

A verdade nua e crua (Robert Luketic, 2009) - Fraquinho, fraquinho. Sem graça do começo ao fim. Nem com fórmula pronta clichê-a-clichê essa galera consegue fazer um negócio mais ou menos. Mas, sei lá, tem o Gerard Butler.

Jogos mortais 6 (Kevin Greutert, 2009) - Lá pelo terceiro Jogos mortais eu já me perguntava se aquilo era mesmo necessário. Mas eu sempre vejo porque acho legal ver aquelas mortes com métodos mirabolantes. E adoro ver a galera tentando fazer o John Kramer colar, e ele não cola por nada. O serial killer mais insípido do planeta, e vai continuar matando aí por pelo menos mais uns 40 filmes.

domingo, 22 de novembro de 2009

"não posso nem dizer que as coisas acontecem só para serem escritas depois, porque na hora de escrever já não sei mais explicar, nem sentir, nem na hora soube.

nesses dias quentes como hoje em que nada acontece nessa mesa cercada de mormaço, não posso poeticamente fechar os olhos & me ver em algum outro lugar, porque não estou lá, porque não estava lá nem quando estava lá."


kelly, A Kelly.

sábado, 21 de novembro de 2009

A: E o problema não era...
B: O problema não era.
A: Não era ela, elas, ninguém, nada.
B: Não, não era.
A: O problema era...
B: O problema continua sendo...
A: Você.
B: Eu.
A: Exato.
B: Não era o emprego.
A: Não era.
B: Não era a faculdade, o curso errado.
A: Pois é.
B: Não era nem a cidade.
A: Muito menos a cidade.
B: Porque o problema continua depois de tudo mudado.
A: Você vai se acostumar ao problema ou vai mudar também.
B: Não, não vou. Ele vai me engolir.
A: Hum.
B: E vai começar pelo cérebro.
A: Len-ta-men-te.
B: Sim, sempre alguma crueldade.
A: Mas, de qualquer jeito, o problema é seu e você tem que resolver.
B: É seu também, mas eu me viro.
A: É nosso, mas você se vira.

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