20110921

20110920

elas sempre vão me estraçalhar
todas elas, as que vierem
não importa quantas vidas
eu tenha que viver sucessivamente:
elas virão, irão embora
como se fossem a primeira,
como se fossem a última,
como se fossem um atalho,
como se fossem só minhas,
e me destruirão.
virão, passearão
pela minha consciência precária
irão, levarão
o que trouxeram e um pouco mais,
seus inevitáveis tributos,
me deixando na companhia da próxima.
elas: as horas

20110917

Esses dias fui pra São Paulo buscar a correspondência na minha antiga quitinete na rua da Glória (e também fui buscar minhas assinaturas de Piauí e Aventuras na História, que ainda vão pra Berrini mesmo eu já tendo saído de lá há mais de um ano - alguém me explica como eu mudo meus endereços de cadastro nas instituições do mundo?) e, ai, gente, não suporto mesmo São Paulo. É gente demais, eu fico o tempo todo pensando em ir pra casa tomar um banho.

Fui buscar a Viviane em Pinheiros, fomos almoçar e fazer nosso programinha de sempre. Céus, como ela é linda. Ela é bonita assim de me fazer engasgar no almoço três vezes. Enfim, reiterei meu pedido de casamento, ela me disse que só vai esperar mais dez anos, depois disso ela vai procurar alguém melhor, e eu garanti que em dez anos já estarei milionária e poderemos ir morar onde ela quiser. (E ela quer São Paulo, mas é só pra me provocar que eu sei. Iremos para uma republiqueta obscura de economia à base de biscoitos de nata e viveremos felizes para sempre depois de organizar uma máfia local para controlar a vida pública e privada dos cidadãos em sua maioria banguelos. Seremos déspotas carismáticas e depois de um tempo ninguém mais saberá viver sem a gente, estaremos frequentemente no único tablóide da republiqueta e cogitaremos a ideia de partir quando o fanatismo começar a dar seus primeiros frutos indesejáveis.)

Enfim, blá. Só pra dizer pela trecentésima quintregésima ônzima vez que eu não tenho ideia de como lidar com o mundo e com as mulheres.

20110909

Poucas certezas

eu tenho na vida, e aqui vão algumas:

1. Pernilongo é tudo filho da puta. Invençãozinha de merda da tal biodiversidade. Meu sonho é ter uma metralhadora de matar pernilongo.
2. Eu queria ter nascido milionária.
3. Mulheres peitudas: eu gosto muito.
4. Existe gente demais que não sabe fazer uma coisa e bota logo a culpa na ferramenta.
5. Janela Secreta está para Johnny Depp assim como Eu Sei Quem Me Matou está para Lindsay Lohan.
6. Fim das contas, noves fora blá, quem fica junto é quem gosta do mesmo tipo de sujeira.
7. Acordar cedo causa mais mortes por ano que o cigarro.
8. Bordoada de paintball dói mais que ralar o joelho.
9. Eu não sei o que eu quero da vida, exceto Ela.
10. Pernilongo é tudo filho da puta.

20110908

O universo e ela

Não sei o que é pior, se é viver em meio ao caos ou se é ser parte de algo predestinado a ser isto. Isto aqui, tudo o que vemos, o pouco do universo que conhecemos.

Partículas, planetas e galáxias colidindo ao acaso me parece algo assustador, mas a arquitetura da mesma dança por alguma inteligência preexistente também é uma ideia que me perturba. Ainda mais porque nós, improváveis organismos florescidos em torno de um sol solitário, somos dotados de percepções espacial e temporal tais que mal podemos executar uma viagem à lua ou observar o crescimento de uma árvore, por exemplo. Vemos tão pouco a olho nu, vivemos menos que tartarugas. A escala do ser humano parece ter sido designada para que nossas preocupações se limitassem aos atos tipicamente humanos, os vitais e instintivos de que tanto nos ocupamos, mas daí acontece que também tem essa cabeça nossa que de repente se depara com situações que só poderiam ser compreendidas fora de tal escala.

Compreender em níveis práticos que um corpo humano é um amontoado mais ou menos organizado de partes funcionais coordenadas por impulsos elétricos não é nada muito difícil; compreender que esse amontoado é grosso modo uma máquina que necessita manutenção e, portanto, demanda trabalho, é coisa que fizemos na escola primária, ou antes, lá pelo tempo em que começamos a ser incentivados a escovar os dentes e a escolher uma profissão; compreender um ofício, as limitações de um esquema em que você trocará seus dias por uma remuneração nem sempre justa (mas existirá remuneração justa, quando se trata de vender nosso tempo e nossa miúda liberdade, que afinal são tudo o que temos?), compreender as relações dinâmicas entre pessoas e fatores que trilharam o caminho que desembocou em nós, compreender enfim o mecânico da existência, o ir e vir dos calendários e seus feriados, são coisas que bilhões de seres humanos fazem sem o menor embaraço neste exato momento. A fome e a digestão, a exaustão e o sono, o sexo e o instinto, a doença e a morte, etc, são coisas razoavelmente dominadas pelo intelecto da nossa espécie no que diz respeito ao seu funcionamento.

Mas como entender o desamparo de alguém que foi negado pela mulher amada? Como descrever a diferença entre esses dois universos - o universo com ela e o universo sem ela -, sendo que são exatamente iguais e completamente diferentes? Como capturar um vislumbre dela através dos meus olhos pra que ela possa ser explicável, como externar nem que seja palidamente a impressão que tenho dela? (Falar sobre a mulher que se ama é como Borges tentando descrever o aleph: não há palavras certas, não há por onde começar e não há como não se desesperar, porque a mulher que se ama é o ponto que contém todo o universo e todos os tempos do universo ao mesmo tempo.)

E eu não conseguiria passar perto de explicá-la, ela que é todo um planeta, mas também não conseguiria tirá-la da cabeça como quem descansa de um problema. Não conseguiria entendê-la na decisão de não me querer e à minha vida inteira, mas também não conseguiria parar de tentar. Porque, seja pelo caos ou pela direção certeira do acaso, o fato é que eu de repente deparei com uma mulher que me deslumbrou nos mínimos detalhes. Cada fragmento dela teve logo o poder de me acionar o ânimo inteiro, cada expressão dela, cada pedaço de pele, cada palavra dita e guardada, cada gesto das mãos, cada dia distante na infância que eu nem conheci. E eu vi nela mais do que eu poderia ver se apontasse um telescópio para o céu, e entendi menos.

E eu pensei, pensei e pensei no que ela me pediu e achei tão injusto que ela tenha me pedido exatamente que eu deixasse de me deslumbrar com ela. Achei injusto que ela não me quisesse quando ela era o meu querer inteiro. Então eu realmente não sei o que é pior: se viver em meio ao caos, onde se está tão constantemente sujeito a tantas dores - inclusive esta -, ou se ser predestinado a isto, a encontrá-la e então deixar que vá.

20110905

O fim do mundo

Esta noite foi inteira de pesadelos e eu me lembro de ter acordado algumas vezes e de ter tentado espantar aquelas imagens dos olhos como quem espanta moscas, mas quando eu tornava a dormir o cenário se reconstruía.

Sonhei que o mundo estava acabando, mas não acabando aos poucos como agora mesmo, e sim daquele jeito bíblico onde tudo convulsiona e toda a matéria atinge estados assustadores de agitação. A natureza tinha toda ficado louca ao mesmo tempo, água fogo terra ar, e tínhamos que fugir com desespero pro canto que desse, porque até dentro de um pesadelo em que o mundo inteiro está acabando nós temos esse instinto poderoso de não querer acabar.

Eu quase nunca me lembro dos meus sonhos; não é nem de perto algo constante, levando em conta que eu durmo pelo menos trinta vezes por mês. Mas este sonho em particular - que deve ter durado horas - me ficou na memória por um fio, por uma única impressão muito poderosa que eu trouxe do reino misterioso que é a cabeça a dormir livremente, e eu pude reconstituir o sonho a partir desse fio.

Lembro de centenas de touros (porque os animais também tinham enlouquecido) disparados furiosos na minha direção, e eu com tempo apenas pra decidir se eu ia ser pisoteada depois de correr pra direita ou de correr pra esquerda. Lembro também de ver minha casa no caminho dos touros, minhas pessoas mais caras totalmente vulneráveis, e lembro de, em meio ao medo, ser atingida por uma revelação: aqueles touros eram a minha fúria e eu estava prestes a ser pisoteada por mim mesma. Lembro que dentro da lógica do meu sonho - alguém já disse que um sonho é um teatro onde somos personagem, palco e plateia, além de sermos também o autor - de alguma maneira eu consegui saber que os touros na verdade eram eu e que eu não precisava correr, só precisava dominá-los e fazê-los desaparecer. E eu lembro, por fim, dos touros se desfazendo no ar enquanto eu compreendia que grande parte do que me atropela vem de dentro, como vêm os sonhos - que de pouco adianta correr, como correr em sonhos -, e também que o mundo acabar e um ser humano acabar são em muitas coisas a mesma coisa.

20110820

and although I'm letting you go there's never gonna be another like you.

20110801

i.

eu preferia ser um prego, um prego sustentando um quadro feio, uma enchente na berrini, um funk carioca, um cartão de visita, um tímpano de avestruz, o segundo volume de um livro de astrologia na última prateleira do sebo de um turco em qualquer beco do mundo, um ipê no inverno, um clips, um arco-íris de mangueira, uma placa de trânsito em cuba, um motor de fusca, os sapatos de um devoto em peregrinação, um átomo de hidrogênio na cauda do cometa mais remoto, uma palavra em sânscrito, eu preferia ser um assalto a mão armada do que ser este sentir que eu sou agora.


ii.

she doesn't want my heart;
I don't want it either.

20110731

e bamos

direto da Kelly.


I.

Y. Y. (25 years old) wants to wake up and realize it was all a crazy dream.


II.

- where the hell are we?
- geographically speaking, in the Northern Hemisphere. socially, on the margins. and narratively, with some way to go.


III.

want an axe to break the ice


IV.

you can't stop my heart
from turning inside out


V.


tema para dissertação, retirado de um poema folclórico árabe:

um fio de cabelo da pessoa que amamos
puxa melhor que quatro bois.

20110730

A esfera de Pascal

"'Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro, ou que o centro do universo está em toda parte e a circunferência em nenhuma'. Isso foi escrito com exultação por Giordano Bruno em 1584, ainda sob a luz do Renascimento; setenta anos depois, não restava reflexo algum daquele fervor, e os homens se sentiram perdidos no tempo e no espaço. No tempo, porque se o futuro e o passado forem infinitos, não haverá realmente um quando; no espaço, porque se todo ser for equidistante do infinito e do infinitesimal, também não haverá um onde. Ninguém está num dia, num lugar; ninguém sabe o tamanho do próprio rosto."

(em Outras inquisições, Borges, Cia. Letras, 2007, p. 16)

Bom dia a você, que não está em lugar algum nem em tempo algum, e ainda por cima não sabe o tamanho do próprio rosto.

20110414

Um parto de viagem (Todd Phillips, 2010) - Muito engraçado. Adoro o Robert Downey Jr e o Zach Galifianakis é hilário. A cena dele vomitando no Robert Downey Jr ('vomitei no seu ferimento' haha) fez a gente rolar de rir no chão e pausar pra secar os olhos do riso.

Um jantar para idiotas (Jay Roach, 2010) - Zach Galifianakis! Gente, que nego en-gra-ça-do. O Steve Carrel é demais, mas o Zach Galifianakis rouba a cena. De resto, o filme é blá. Muito irritante, não gosto de filme muito irritante.

Uma manhã gloriosa (Roger Michell, 2010) - Que gracinha é a Rachel McAdams, né? Mulher de sorriso amplo & esperto & irresistível & tudo aquilo. Adoro ela, acho que é do time das atrizes geniais. Muito bom o filme, é praticamente O diabo veste Prada sem a Meryl. Pena que o Harrison Ford não se compara à Meryl. Mas a Diane Keaton está muitíssimo bem e o Patrick Wilson está um charme. Gostei bastante.

Room in Rome (Julio Medem, 2010) - Julio Medem é um mestre. Filmaço. Deve assustar uma galera, mas é inegavelmente cheio de força. Duas gatas se pegando com gosto, pois é. Recomendo só praqueles que gostam muito de mulher.

Whatever works (Woody Allen, 2009) - Outro mestre. Woody Allen faz uma obra-prima atrás da outra como se isso não fosse nada demais, de boa. Adorei este aqui, pra variar. Não tem nada parecido com o senso de humor do Woody Allen. A Lindsay tinha que fazer um filme com ele logo - antes que ele morra, estou sempre apreensiva quanto ao amanhã das pessoas muito velhas -, porque, como eu digo, se tem alguém que pode dar um Oscar pra Lindsay, esse alguém é o Woody Allen.

20110412

i.

tem feito dias lindos.
dias lindos têm sido feitos.
tão fazendo dias lindos.
mas uia que dias lindos.
ques dia lindo.
haha dãr.
nada a ver, foi só pra testar as frases.
gente, que dias. repararam no céu? da lua até tirei fotos.
borraram, mas a intenção etc.
que dias. eu amo os dias.
eu sou a menina mais sortuda do planeta, qualquer dia eu explico por quê.


ii.

e olha que eu estou resfriada de novo. queria escrever das minhas aventuras pelo mundo com o nariz escorrendo, mas estou com preguiça agora, droga.


iii.

dormi treze horas de ontem pra hoje! eu já disse que eu sou apaixonada por dormir? e por carambola. comi 8 carambolas hoje! fatiadas em forma de estrelinha, que delícia de fruta, meus cumprimentos ao inventor.


iv.

ah, é. semana passada meus pais fizeram 27 anos de casados. vinte e sete, oun.

20110408

Everytime we say goodbye



A música é linda, mas não tem versão que se iguale a essa do Ray Charles. No terceiro verso que ele canta meu coração já derreteu e quando ele chega no 'they allow you to go' eu nem consigo ficar de olho aberto, a vida vale mais a pena porque é possível que eu me arrepie assim. Que voz. Que timbre, que precisão, que doçura. His voice is so wonderful it doesn't even sound like a voice, it sounds like love itself. O Borges - que também era cego e gênio - disse que certas coisas estão sempre prestes a nos dizer algo porque guardam uma iminente revelação que não se realiza - talvez seja isso o fato estético, diz ele. O Ray Charles, especialmente nessa interpretação, extrapolou a teorização do Borges porque impregnou o canal - sua voz - de tantas 'iminentes revelações' que elas parecem de fato se realizar, nota a nota. Nos transportamos. Por isso a voz dele é o próprio amor. O papo 'a arte pela arte' para de fazer sentido, porque o conteúdo se ajusta à forma com perfeição e então a técnica se presta puramente a fazer transparecer aquele vasto mundo que - já pensou? - seria incomunicável se a arte não existisse.